Seca no Amazonas


 

Seca dos rios atinge mais de 10 mil pessoas no Amazonas

Estiagem causa mortandade de peixes no AM

Foto: Arnoldo Santos/Especial para Terra

 

A vazante dos rios e a falta de chuvas estão causando prejuízos e deixando isoladas cerca de 10,5 mil pessoas em comunidades de pelo menos quatro municípios do Amazonas. Agricultura e pecuária também sentem os efeitos da estiagem que, em alguns locais, já dura mais de 25 dias, deixando pastos e plantações secos.

 

Segundo a Defesa Civil do Estado, o município mais atingido é Manaquiri, distante cerca de 65 quilômetros de Manaus. O acesso à cidade se dá por estrada e por água. Mas o rio Manaquiri, que banha a cidade, está tão baixo que embarcações maiores não chegam mais até o porto municipal.

 

Uma das piores consequências da vazante do rio foi a morte de toneladas de peixes de todas as espécies. "Como houve uma grande enchente, não só em Manaus, mas também em vários outros municípios dessa região, os peixes foram para as cabeceiras de lagos, se reproduziram em grande quantidade e, com a vazante, houve essa mortandade pelo pouco espaço e grande quantidade", explicou Herte Rebelo, pesquisador de geociências do Serviço Geológico do Brasil (CPRM). O fenômeno deixou vários quilômetros das margens do rio Manaquiri cobertas por uma camada de peixe podre causando um forte odor e deixando a água sem condições de consumo humano.

 

Água potável está escassa. A única fonte disponível são as cacimbas e os poços artesianos construídos nas comunidades. Problema maior enfrentam os moradores das áreas mais distantes que têm de andar horas por leitos de lagos e igarapés secos para conseguir água e comprar alimentos.

 

Escolas paralisadas

Pela dificuldade de locomoção e transporte, 17 escolas da zona rural do município tiveram de paralisar suas atividades, deixando 2,7 mil alunos sem aula. A prefeitura decretou situação de emergência pelo perigo de doenças transmitidas pela água contaminada. "A situação pode ficar pior porque o rio principal (Manaquiri) está em todo o seu percurso com várias barragens (naturais) e logo o ribeirinho não vai poder chegar nem de canoa a lugar nenhum", disse o coordenador da defesa civil de Manaquiri, Denílson Souto. Uma equipe de técnicos da defesa civil estadual está percorrendo todas as comunidades do município para fechar a Avaliação de Danos (Avadan), documento que será entregue à secretaria nacional de defesa civil.

 

Além do Manaquiri, os municípios de Anamã, que também fica na calhar do rio Solimões, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, os dois situados no rio Negro, estão em situação preocupante, segundo a defesa civil estadual. "Para esses municípios, as primeiras ações que estamos implementando são deslocá-las para um local seguro na sede (do município), melhorar o abastecimento de mantimentos para o município, melhorar o atendimento à saúde básica e fazer o levantamento epidemiológico", disse o secretário estadual de Defesa Civil do Amazonas, Roberto Rocha.

 

Atravessar o rio Negro leva mais de uma hora

A navegação também já está sendo afetada. A travessia do rio Negro de Manaus até o distrito do Cacau-Pirera, município de Iranduba, que é ligação por estrada para vários municípios, aumentou de 25 minutos para mais de uma hora de duração. O porto de atração teve de ser mudado para um local mais acima do rio, onde as balsas e ferry-boats conseguem chegar sem ficarem encalhados.

 

Problema parecido acontece com a travessia de Manaus até o porto do Careiro, onde continua a BR 319, ligação para municípios da calha do rio Solimões. A balsa leva cerca de uma hora para fazer a travessia. "É comum a gente ficar encalhado porque a balsa não consegue atracar direito e quando fica cheia de carros pesados, não consegue sair. Isso aqui está ficando insuportável", diz o caminhoneiro José Feliz da Silva.

 

No município do Careiro da Várzea, um dos principais fornecedores de produtos para a capital, os produtores rurais buscam a recuperação dos prejuízos causados pela maior cheia já registrada no Amazonas. As plantações foram perdidas durante a enchente, que durou até início de julho. Mas agora, os agricultores apostam na qualidade do solo de várzea que passou meses submerso e reapareceu com a vazante.

 

No início de Setembro, o agricultor Francisco Almeida estava com as reservas no fim. Ele foi um dos que perderam toda a plantação de hortaliças durante a enchente, entre março e agosto. Menos de três meses depois, já conseguiu colher cerca de 2,5 mil melancias germinadas das sementes que recebeu da prefeitura local, uma das ações emergenciais para recuperação da lavoura. "Naquela época, estava quase sem nada. Agora, deu pra recuperar um pouco das economias", disse o agricultor.

 

Além das sementes, governo estadual e prefeitura do Careiro distribuíram farelo, ração e sal grosso para o gado. "Nós estávamos acostumados a enchente de três, quatro meses, essa última durou seis meses", diz o criador Sidney Passos. Ele cria cerca de 100 cabeças de gado leiteiro. A produção diária vai para fábrica de laticínios da cooperativa de produtores rurais.

 

O município tem hoje um rebanho de aproximadamente 68 mil cabeçcas e produz em torno de 17 mil litros de leite por mês. Mas essa produção ainda está em torno de 40%. "Na pecuária, o pasto que surgiu quando a água baixou estava muito seco. O processo de recuperação foi mais lento do que na agricultura", explica o gerente do escritório do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário (Idam) do Careiro, Ofir de Souza.

 

Meteorologia

Para responder às expectativas de pecuaristas, agricultores e ribeirinhos, a meteorologia não é muito otimista. Nos últimos cinco meses, a previsão de chuva abaixo do normal se confirmou. Em julho, agosto e setembro, choveu apenas 30% do esperado para esta época do ano. Os dados do CPRM confirmam que outubro foi menos seco, chovendo 80% da média prevista. Com isso, o nível do rio Negro chegou a parar de baixar.

 

Mas nos úlitmos dez dias, o rio voltou a descer de maneira incomum. "Em outubro, ele (rio Negro) tinha estabilizado. Mas voltou a descer com força chegando baixar 14 centímetros em um dia", diz Valderino Pereira, engenheiro do Porto de Manaus, responsável pelo acompanhamento da régua de medição do nível do rio. A cota do rio Negro nesta sexta-feira (nos fins de semana, não há medição) está em 16,19 metros.

 

A menor cota registrada durante a vazante histórica de 2005 foi de 17,59 metros. Logo, fenômenos como de Manaquiri, com a morte de peixes, isolamento de mais comunidades e ações de emergência poderão ser vistas em outras partes do Amazonas, nos próximos meses. O perído chuvoso, o que é chamado popularmente de inverno amazônico, era pra ter começado pelo dia 2 de novembro, o que não aconteceu.

 

Terra

 

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