Relógio Biológico


 

Antes de dar corda no relógio

Dr. Alessandro Loiola*/Especial para BR Press

 

 

(BR Press) – Muito se fala sobre Livre Arbítrio, sobre a capacidade de escolher com liberdade e conscientemente. O livre arbítrio é uma das conquistas mais valorizadas em nossa espécie. Por exemplo: em época de férias, é você e você apenas quem escolhe a hora de acordar, conversar, comer e dormir, certo? Errado.

 

Para dar corda ao assunto, me deixe explicar por quê.

 

Imagine seu corpo como um grande relógio. Melhor ainda, como um aglomerado de mais de 100 relógios sincronizados, determinando a hora de sentir sono, fome, ir ao banheiro, etc. Estes relógios internos existem de verdade e determinam um ciclo chamado ritmo circadiano (desde já: circadiano significa "ciclo de um dia"). A ciência que os estuda possui até mesmo um nome: cronobiologia.

 

O ritmo circadiano mantém seu corpo alerta durante as horas de claridade e ajuda a relaxar à noite. É capaz até mesmo de lhe acordar na hora certa pela manhã quando você se esquece de ajustar o alarme na cabeceira. Infelizmente, este mesmo relógio lhe acorda nos dias em que você poderia dormir até um pouco mais tarde…

 

Funcionando?

 

Nos mamíferos – e você certamente é um deles -, o relógio biológico localiza-se numa porção do cérebro chamada hipotálamo. Mas não perca tempo tentando encontrar o seu. Apenas certifique-se de que ele continue funcionando por mais algumas décadas. Em alguns insetos, o relógio biológico está na retina dos olhos. Nos pássaros, ele pode ser encontrado no hipotálamo ou na glândula pineal.

 

Em todos os casos, estes relógios estão vinculados a receptores sensíveis que sincronizam o relógio interno com a luz do sol. Funciona da seguinte maneira: ao atingir receptores na retina, a luz solar desencadeia estímulos que viajam por fibras nervosas até o cérebro, dando corda no seu mecanismo de horários. Estas fibras também transmitem sinais que afetam níveis hormonais relacionados ao ajuste do relógio interno.

 

Por exemplo: os níveis de cortisol (um hormônio relacionado ao metabolismo e ao sistema de imunológico), são maiores entre 6 e 8 da manhã, diminuindo gradualmente durante o dia. Ao mudar o padrão de sono, os níveis de cortisol também se alteram.

 

O hormônio do crescimento (GH), por sua vez, aumenta com o sono em crianças – os níveis máximos são atingidos nas primeiras duas horas de sono. Se a criança apresenta distúrbios do sono, a produção de GH cai, prejudicando seu desenvolvimento.

 

Os derrames e os ataques cardíacos são mais comuns no período da manhã do que em qualquer outro horário do dia. Muitas pessoas podem pensar que não é seguro, então, exercitar-se pela manhã. Todavia, a culpa não está no exercício, mas nas alterações do ritmo circadiano: entre outras coisas, os níveis elevados de cortisol fazem com que o sangue se coagule mais rapidamente por volta das 8 horas da manhã.

 

A pressão também se eleva neste horário, permanecendo assim até o final da tarde, quando começa a cair, atingindo seu ponto mais baixo durante a noite.

 

Acertado?

 

Ainda, atletas experimentam picos de temperatura, força e flexibilidade no final da tarde – e este é o melhor período do dia para competirem. À tarde, a sensibilidade à dor também é menor. O relógio interno pode ser regulado por estímulos não-luminosos, como exercícios, drogas, remédios e hormônios.

 

À medida que envelhecemos, o marcapasso cerebral perde células, alterando os ritmos circadianos – e isto, associado ao uso de vários remédios e à falta de atividade física regular, pode explicar o relógio "desregulado" de pessoas mais idosas.

 

Sono

 

Dormir uma ou duas horas mais tarde além do horário habitual também pode causar problemas. É mais difícil acordar na manhã seguinte e não raramente passamos o dia irritados e com dor de cabeça. Isto pode não ser simplesmente "falta de uma noite bem dormida", mas uma alteração no padrão do ritmo circadiano.

 

Neste caso, a pessoa está em um ritmo onde o corpo quer descansar das 4 da manhã até às 5 da tarde. E aí, seu dia de praia foi-se.

 

Manter um horário regular para o sono e as refeições, praticar exercícios durante o dia (e não à noite, quando você aumenta a carga de adrenalina e prejudica o sono) e relaxar por alguns minutos antes de ir para a cama são táticas que ajudam o bom funcionamento do seu relógio biológico.

 

Agora sim, dê corda à vontade.

 

(*) Dr. Alessandro Loiola é médico, escritor, palestrante, autor de Vida e Saúde da Criança e Crianças em Forma: Saúde na Balança (www.editoranatureza.com.br). Fale com ele pelo e-mail aloiola@brpress.net ou peloBlog do Leitor.

 

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