Sem Destino


 

Andarilho russo chega em SP

Carolina Iskandarian

 

 

Na fronteira entre Espanha e Portugal,

andarilho registra etapa de aventura

(Foto: Divulgação)

 

Primeira parada no Brasil foi no Rio e ele subiu até a costa paulista.A viagem de Andrej Raider pelo mundo deve levar ao menos 7 anos

 

Quando menino, o russo Andrej Raider imaginava que o playground de casa não era suficiente para suas aventuras infantis. Aos cinco anos, queria que o planeta fosse seu quintal. Atualmente, com 23 anos, colocou o sonho em prática e tornou-se um andarilho. Depois de passar por cidades da França, Espanha e Portugal, chegou ao Brasil e agora está em São Paulo. Dentro dos países, faz tudo a pé, na medida do possível.

 

“Queria que o mundo fosse meu playground. Quando vi que minha vida estava chata, lembrei o sonho de criança e imaginei essa viagem, essas aventuras”, conta Raider, que está na capital paulista há uma semana e passou a noite de quarta-feira (27) contando suas andanças para alunos de um curso de inglês da região central. Antes de partir na longa caminhada, esteve em Santiago de Compostela, na Espanha. “Lá eu descobri que gostava de andar e comecei a pensar na vida”. Dali para a ideia da viagem a pé foi um passo.

 

 

 

A grande e cansativa volta ao mundo começou em Saint-Étienne, na França, em 19 de julho do ano passado. E é nesta cidade que ele pretende encerrar a caminhada daqui a uns seis anos pelo menos. “Minha mãe está preocupada, mas também está orgulhosa”, diz ele, durante a entrevista, antes de enfrentar as perguntas dos estudantes. O russo saiu de casa com 800 euros e informa que vive de doações ou de bicos que arruma pelo caminho. Até massagens eles fez em troca de uns trocados. Pode também dar aulas de piano.

 

 

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Nos dez meses fora de casa – ele cresceu na Alemanha – Andrej disse ter passado por regiões montanhosas, por florestas e praias. “Ainda não estive em desertos”, brinca. Por dia, em média, anda 20 km. “Dependendo do lugar, se estou sozinho, posso andar 35 km, 45 km”. Quando os pés começam a sangrar e ele consegue um pouso seguro, para e descansa ou dorme.

 

Com forma de diário, ele criou um site, onde narra suas experiências. Criou também um espaço ali para que outras pessoas coloquem no link seus sonhos e troquem ideias com mais internautas.

 

 

 

 

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Raider conta a alunos em SP suas experiências (Foto: Carolina Iskandarian/ G1)

 

Caminhando com lobos

 

Raider, que estudava física antes de sair andando pelo mundo, conta que, uma noite, caminhava por uma floresta na Galícia (Espanha), quando ouviu o rosnar de lobos. “Vi aquelas sombras e não sabia se andava ou ficava parado. Achava que eles iam me atacar". O percurso todo era de 6 km e ele lembra que estava na metade. “Tive sorte porque fui andando e eles não fizeram nada, mas pensei que fosse ser minha última caminhada”.

 

Medo ele também disse ter sentido quando estava a poucos quilômetros de São Paulo. Perguntou ao amigo que o recebeu em casa: “é seguro ir caminhando?”. O empresário Steven Beggs, de 48 anos, orientou que o rapaz evitasse pegar a estrada à noite. Por via das dúvidas, ele veio de ônibus e teve como primeira parada na capital a rodoviária do Tietê. Raider estava em Santos e já tinha caminhado ao longo do Litoral Sul do Rio de Janeiro pela Rodovia Rio-Santos. 

 

 

 

De tênis furado

 

Após meses caminhando, Raider está no segundo par de tênis, que já está furado. Diz que só tem dinheiro para ficar em São Paulo “por mais três dias” e que permanecerá na cidade mais um mês se arrumar emprego. Quando não consegue cruzar fronteiras com as pernas, vai de avião ou trem. Foi assim que veio parar no Brasil. “Estava em Lisboa e um grupo de amigos me deu dinheiro porque eu deveria conhecer o Rio de Janeiro", diz.

 

Raider conseguiu muitos tetos, com cama quentinha, por meio de um site onde pessoas no mundo se comunicam e oferecem suas casas para estrangeiros. Beggs o recebeu assim. “A gente gosta de ter gente em casa. Temos um quarto basicamente para as visitas”, conta o empresário, que mora na Vila Romana, Zona Oeste, com a mulher e dois amigos. Para ele, que diz ter abrigado 45 pessoas desde outubro de 2008, é curioso ver como as culturas são diferentes.

 

 

 

Raider conta nem sempre ter sorte. Relata já ter dormido na barraca que leva nas costas e até em quartéis do Corpo de Bombeiros. De chapéu na cabeça, cobrindo em parte o cabelo comprido, o andarilho revela que não gosta de fazer planos. Tem um mapa do mundo, com uma linha vermelha traçada para ter uma vaga noção de onde quer que seus pés o levem. A próxima parada deve ser Curitiba. “Não tenho ideia do que vou ver em seguida. Gosto da surpresa”.

 

 

 

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1170417-5605,00.html

 

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