As duas faces da morte e suas lições


 

As duas faces da morte e suas lições

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19 de Fevereiro de 2009 – É curioso como o tema é levantado, no mesmo dia, pela imprensa, em duas situações opostas: pelo foco de um sobrevivente e pelo de um condenado.

 

 

O vice-presidente José Alencar, de 77 anos, que luta contra o câncer há 12, venceu mais uma etapa desta guerra, bradando que não tem medo da morte. É um homem para se aplaudir de pé, a partir de sua trajetória pessoal, de balconista a um dos empresários mais poderosos de Minas Gerais, senador e segundo homem da República há seis anos. Mas, sobretudo, pela força que demonstra ao ir contra o governo de que participa, em sua batalha contra a alta dos juros, por ser uma certeza, mas também pela opção que fez pela vida. Sua declaração ao sair do hospital mostra o homem de caráter que é: disse não querer viver um dia sequer a mais se não puder se orgulhar dele.

 

 

Um recado claro aos médicos e à família, de que não quer terminar ligado a uma máquina, mantido vivo a qualquer custo.

 

 

É uma figura extraordinária e um exemplo nacional.

 

 

O outro é Gilberto Dupas, o economista, analista político, escritor e grande articulista que morreu na terça-feira, vítima de um câncer de pâncreas, aos 66 anos. Seu último artigo, publicado postumamente ontem pelo Estadão, começa afirmando que a humanidade passou a namorar a ideia de eternidade, com os incríveis avanços da medicina, e parece estar lentamente perdendo a aceitação da finitude da vida.

 

 

No artigo, Dupas mostra que andou pesquisando o assunto em seus últimos meses de vida, já que cita inúmeros biólogos, sociólogos, antropólogos, cientistas, físicos.

 

 

O cerne da questão é que a ciência está cada vez mais apta a prolongar nossa existência, libertando o homem da prisão biológica da mortalidade.

 

 

Só que, apesar disso, enquanto se promete aos idosos recuperar a juventude, a sociedade de consumo cria jovens obesos e diabéticos, provoca cânceres e outras doenças sistêmicas pelas contaminações e pela inatividade.

 

 

O que Dupas, sem nenhum ranço sentimental ou piegas, quer lembrar é que o limite existe.

 

 

A medicina pode tentar de tudo, mas tem uma hora em que a vida acaba. E não saber disso transforma os humanos em seres que ainda não conhecemos, em pessoas que terão de fazer uma opção incrivelmente egoísta: já que vamos viver para sempre, melhor que não nasça mais ninguém, pois não vamos caber neste mundo.

 

 

E termina perguntando: Quem gostaria de viver numa sociedade que os arautos do futuro anunciam?

 

 

Por coincidência, na noite de terça ainda assisti na tevê ao filme Le Temps qui Reste, sobre um jovem que recebe a notícia de que não vai viver mais do que três meses, devido a um câncer que já se espalhou. E escolhe não recorrer a quimioterapias e aproveitar, exatamente, o tempo que lhe sobra. Arruma suas relações, deixa um herdeiro, e morre em paz, na praia, no pôr-do-sol.

 

 

Parecem três recados, mesmo que um deles ficcional, a nos lembrar de que somos perecíveis. Que devemos pensar nisso, pois, a qualquer momento, podemos ser instados a fazer opções. (Gazeta Mercantil)

 

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