Eu, grávida?


 

Eu, grávida?

Todo mundo está careca de saber que, basta transar uma vez, e já está correndo o risco de engravidar. Mas acredite: muitas e muitas adolescentes continuam abrindo mão de seus projetos de vida para virarem mamães muito cedo

Rose Mercatelli

 

Na época da adolescência da sua mãe, lá pelos anos 70, a quantidade de meninas que engravidava nessa fase da vida era três vezes menor do que hoje em dia. Apesar da informação dada em casa, na escola e na mídia – na Atrevida, por exemplo -, a galera jovem continua vacilando e, por motivos diversos, se vê cara-a-cara com a possibilidade de ter um bebê. E, se isso já assusta aos 19, que dirá aos 11 anos. Ficou chocada? Pois saiba que este é um dos dados mais alarmantes que temos para você.

 

"Enquanto o número de gestantes entre 15 e 19 anos diminuiu, aumentou a quantidade de garotas grávidas entre 11 e 14 anos", avisa a doutora Lígia de Fátima Nóbrega Reato, médica especialista em adolescentes, professora da Faculdade de Medicina do ABC (SP). A pergunta que fica no ar é a seguinte: "Por que diabos esses índices continuam crescendo?"

 

MUITOS PORQUÊS

Você mesma deve ter uma amiga ou conhecida que já passou por essa situação ou que está prestes a ter um bebê. Mas, se perguntar a ela o que a levou a transar sem se prevenir, verá que, na maioria das vezes, nem a própria garota saberá dizer por que não tomou cuidado. Provavelmente, a resposta dela será: "Achei que não iria acontecer comigo". Esse tipo de idéia, que os psicólogos chamam de pensamento mágico, é bastante comum na adolescência.

 

Dizem os especialistas que, nessa época da vida, a gente acha que pode tudo e que complicações só acontecem na casa da vizinha ou da amiga. É mais ou menos como se, por alguma mágica inexplicável, tivéssemos o poder de evitar problemas só pela força do pensamento.

 

Muitos adolescentes até conhecem métodos para evitar a gravidez. Mas, na verdade, não sabem direito como usá-lo. É o que acontece com garotos que não colocam direito a camisinha, o que costuma levar a acidentes como rasgos e furos no preservativo. E rola a mesma coisa com as meninas. Uma boa parte das garotas não vai ao ginecologista por medo de os pais descobrirem. Com isso, não obtém as informações de que precisam para tomar a pílula direitinho, por exemplo. Isso para não falar que ainda existem muitos meninos que se recusam a usar camisinha por puro preconceito. A namorada, por sua vez, com medo de perder o cara, acaba concordando com essa atitude. O resultado: segundo dados do SUS (Sistema Único de Saúde), a cada 100 partos, 27 são de adolescentes, de 10 a 19 anos, que acabam tendo bebês bem antes do tempo esperado.

 

A falta de informação correta também contribui para que os adolescentes usem métodos que não são eficazes. A tabelinha, por exemplo. O índice de falhas nessa prática é significativo: chega a 40 %. Ou seja, em 10 mulheres que usam esse recurso, quatro ficam grávidas. Entre as adolescentes, o risco de erro é bem maior, pois, durante dois anos após a primeira menstruação, os ciclos costumam ser muito irregulares. Daí, a dificuldade em calcular o período fértil.

 

A vontade de casar logo também serve como justificativa para uma gravidez não planejada. Às vezes, os jovens estão tão apaixonados que sentem pavor só de pensar que o relacionamento pode acabar. E acreditam que um filho virá para consolidar a relação. Além disso, algumas garotas acham que casando não precisarão mais dar satisfação aos pais. Só não imaginam que terão um marido e uma nova vida para administrar, com outro tipo de responsabilidades.

 

As meninas também engravidam por pura carência. Muitas acreditam que, se tiverem um filho, pelo menos serão amadas por ele.

 

Porém, os especialistas são unânimes em afirmar: a causa principal do aumento da gravidez na adolescência não são os hormônios, nem a curiosidade, nem a paixão, mas a falta de um projeto para a vida: "Menina que quer estudar para ter uma carreira ou se dedicar ao esporte ou às artes, por exemplo, se cuida e não engravida. Ela sabe que ter um filho precocemente significa abrir mão dos seus projetos", avisa a doutora Lígia.

 

Números que assustam!

Veja alguns resultados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, do Ministério da Saúde, de 1996, envolvendo jovens na faixa de 15 a 19 anos.

E pense um pouco sobre eles:

18% das adolescentes nessa faixa etária já haviam ficado grávidas alguma vez.

1 em cada 10 meninas nessa fase já tinha 2 filhos.

49,1% desses filhos não foram planejados.

20% das adolescentes da zona rural têm pelo menos 1 filho.

13% das adolescentes da área urbana têm pelo menos 1 filho.

54% das meninas que freqüentaram a escola por cinco anos já haviam ficado grávidas.

 

Por outro lado, só 6,4% das que passaram mais de nove anos no colégio engravidaram cedo. 45,9% das jovens sexualmente ativas não utilizam nenhum método anticoncepcional.

 

PERDAS E DANOS

Ninguém duvida que a maternidade seja uma das realizações mais bonitas na vida de qualquer mulher. Porém, é também uma das tarefas mais difíceis. Agora, imagine! Como uma menina que ainda está em busca do próprio caminho rumo à idade adulta pode estar preparada para cuidar de um outro ser totalmente dependente dela? "Em geral, as adolescentes que engravidam passam por várias dificuldades físicas, emocionais e sociais. A maioria não tem a consciência real do que é a maternidade. Ser mãe dá alegria, mas também exige trabalho e responsabilidade. E é justamente disso que as jovens não se dão conta", afirma a professora.

Se a maternidade já mexe com as emoções de uma mulher adulta e segura, imagine o que acontece com uma garota. Do ponto de vista emocional, ela terá de lidar com duas crises juntas: a da própria adolescência e a do novo papel de mãe que vai ter de encarar.

Quanto ao social, a verdade é que as novas responsabilidades acabam distanciando a garota da turma. Enquanto as amigas conversam sobre garotos e baladas, a jovem mãe (da mesma idade) está mais preocupada com as cólicas de um bebê que chorou a noite inteira. Porém, a grande perda é o abandono da escola: "A maioria das meninas não consegue conciliar o estudo com a maternidade. Com isso, deixa os livros e perde a oportunidade de se profissionalizar", analisa a especialista em adolescentes.

Quem quer estudar para ter uma carreira ou se dedicar ao esporte ou às artes, se cuida e não engravida. Sabe que ter um filho cedo significa abrir mão dos projetos

Em relação aos riscos de saúde, então, é bom ficar alerta, pois existem vários problemas que são muito comuns em mães adolescentes. Elas estão mais sujeitas a sofrer de anemia e de toxemia gravídica, problema sério que, diversas vezes, significa risco de morte. E é bom lembrar também que, quanto mais novinhas, maiores as possibilidades de complicações no parto por causa da falta de maturidade do organismo. De acordo com a Organização Pan- Americana de Saúde, filhos de mães adolescentes, em geral, apresentam baixo peso ao nascer, e, conseqüentemente, maior probabilidade de morte do que os filhos de mães com 20 anos ou mais.

 

Já aconteceu!

 

Se você, que lê essa matéria, está grávida, ou se seu bebê já nasceu, aí vão alguns conselhos da especialista:
Caso ainda não tenha contado aos seus pais, não espere mais. Converse com um adulto – tia, avó, prima – que a ajude a chegar neles. Nesse momento, mais do que nunca, você precisa de apoio. Procure fazer o pré-natal o mais rápido possível. Muitos problemas podem ser evitados caso tenha acompanhamento médico, mês a mês.

 

Descubra se na sua cidade existe algum serviço de saúde para adolescentes. Ali, receberá atendimento especializado. Tente não abandonar os estudos. É provável que, no início, sinta-se desconfortável ao entrar na sala com um barrigão. Mas, pode apostar, seu esforço será recompensado. Seu filho terá o maior orgulho de você no futuro. Aprenda a se proteger.

 

Quanto mais cedo a menina se torna mãe, mais chances de aparecer um segundo filho antes de completar a maioridade. Por fim, se seu bebê já nasceu, entenda que ele vai precisar de todo amor, carinho e cuidados que você pode dar. Esse é o verdadeiro significado da maternidade.

 

Consultoria: Lígia de Fátima Nóbrega Reato, médica hebiatra, coordenadora do Instituto de Hebiatria e do Ambulatório de Adolescentes do Centro de Saúde Escola da Faculdade de Medicina do ABC e vice-presidente do departamento de Adolescentes da Sociedade Brasileira de Pediatria

 

Atrevida

 

 

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