O que é drenagem linfática e para que serve?


 

O que é drenagem linfática e para que serve? 

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Para que serve a drenagem linfática

 

A drenagem linfática apenas elimina líquidos do corpo por alguns dias. E ainda pode fazer mal à saúde. Então por que ela virou mania entre as mulheres?

 

PREJUÍZO

A oficial de justiça Sandra Menezes sofreu uma trombose na perna direita. A drenagem linfática malfeita agravou o problema 

 

Poucas pessoas sabem o que é sistema linfático, mas a tal drenagem é oferecida até no mais humilde dos salões de beleza. Esse é um exemplo curioso de como um procedimento médico pode ser tão popularizado a ponto de virar artigo de beleza. A drenagem linfática foi criada nos anos 30 para tratar o inchaço decorrente de inflamações (chamado de linfedema). Durante décadas só foi aplicada por fisioterapeutas treinados para esse fim. Mas nos últimos anos virou mania entre as mulheres. A cada verão, elas fazem fila para receber a massagem que promete reduzir medidas e acabar com a celulite. Isso funciona?

 

Vamos por partes. O sistema linfático é um conjunto de vasos e gânglios que protegem o organismo de infecções. Parece um rio cheio de afluentes. Os vasos linfáticos transportam a linfa, subproduto de tudo o que é descartado pelas células. Ela é formada por água, proteínas, gorduras e bactérias. A drenagem é uma estimulação manual que acelera a contração do sistema linfático. E, com isso, reduz o inchaço comum principalmente no período pré-menstrual.

 

As vantagens estéticas do método são muito mais limitadas do que se imagina. "A drenagem apenas melhora o aspecto da pele e tira a sensação de desconforto causada pelo líquido acumulado", diz a dermatologista Ana Lúcia Récio. A médica diz que a drenagem bem-feita é baseada em movimentos suaves. Se a paciente é apertada, sente dor ou fica com hematomas, o procedimento está errado. "São movimentos suaves que ativam a circulação sanguínea e linfática e aceleram a eliminação de fluidos", afirma.

 

Já a sonhada perda de medidas simplesmente não existe, diz a fisioterapeuta Gerseli Angeli, do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte, da Universidade Federal de São Paulo. A perda de líquidos dá a impressão de emagrecimento, mas o efeito dura no máximo alguns dias. "Emagrecer só é possível com atividade física e alimentação equilibrada. O inchaço diminui e isso reduz a sensação de peso corporal. Mas a gordura continua lá", diz. A esteticista Maria de Fátima Lima Pereira, consultora de beleza do Senac São Paulo, concorda. "Qualquer salão de bairro tem uma placa vendendo a drenagem para perda de gordura corporal. O sistema linfático nem está ligado à gordura. E sozinha a drenagem também não acaba com a celulite", afirma.

 

Quem fecha um pacote de dez sessões por até R$ 500 na esperança de trocar o jeans 40 pelo 38 na maioria das vezes está jogando dinheiro fora. O prejuízo não é apenas financeiro. A drenagem pode fazer mal à saúde. O cirurgião vascular Henrique Jorge Guedes Neto, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, afirma que um dos problemas causados pela drenagem malfeita é o fibroedema. "A pele endurece e se torna impossível realizar os movimentos da drenagem", diz.

 

No caso de infecções – como gripe, bronquite, apendicite -, a estimulação da circulação linfática pode ajudar a disseminar vírus e bactérias pelo organismo. Se a pessoa teve uma trombose venosa profunda há pouco tempo, a drenagem pode provocar o deslocamento de trombos. O resultado pode ser gravíssimo: uma embolia pulmonar ou um acidente vascular cerebral.

 

A banalização da drenagem linfática preocupa o Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional do Estado de São Paulo. Em novembro, a entidade começou a fazer um levantamento de estabelecimentos que oferecem a técnica sem apresentar condições ideais de higiene ou sem a presença de fisioterapeutas. Já encontrou 297 desses locais. "Vidas correm perigo", diz o vice-presidente do conselho, Mario César Guimarães Battisti. "As pessoas precisam ser informadas de que a drenagem é um procedimento clínico que não pode ser realizado por profissionais sem o devido preparo."

 

Os fisioterapeutas dizem querer evitar casos trágicos como o da oficial de justiça Sandra Belém Menezes, de 45 anos. Em 2000, ela recebeu o diagnóstico de trombose venosa profunda – um inchaço no pé direito, resultado de um coágulo sanguíneo. Passou por diversos médicos. A maioria não sabia como tratá-la. Até que um ortopedista indicou a drenagem linfática. A esteticista da clínica recomendou 20 sessões. "O que estava ruim ficou muito pior", diz Sandra. "Eu saía da clínica dolorida, cada vez mais roxa, e ela me dizia que aquilo era normal." Depois de muito sofrimento, Sandra descobriu o tratamento correto. Faz sessões de fisioterapia até hoje.

 

Existe disputa entre fisioterapeutas e esteticistas sobre qual das duas categorias estaria autorizada a oferecer drenagem linfática. Ambas estão, desde que os profissionais tenham passado por treinamento específico e as clínicas em que trabalham ofereçam boas condições de higiene.

 

A drenagem ficou famosa apenas pelas promessas estéticas, mas ela é um recurso importante da medicina. Serve para amenizar inchaço – e assim trazer conforto – a pacientes nos períodos pré e pós-operatório. Também é aplicada nos casos de disfunção da circulação linfática (linfedema), gravidez a partir do terceiro mês, varizes e queimaduras. Ou ainda no tratamento de pacientes de câncer de mama que passaram por mastectomia e radioterapia. "O tratamento do câncer atinge a função linfática e a drenagem ajuda a reduzir o inchaço", afirma a fisioterapeuta oncovascular Silvia Bacellar, do Instituto Nacional do Câncer.

 

Uma outra fonte de preocupação é quando a drenagem é aplicada em mulheres que têm câncer e não sabem. Existe a hipótese de que ela poderia acelerar a disseminação das células malignas pelo organismo. A dúvida é pertinente, mas não há consenso entre os médicos. "É improvável que a drenagem acelere uma metástase", diz o oncologista clínico Vladimir Cordeiro de Lima, do Hospital do Câncer, em São Paulo. Os fisioterapeutas dizem que essa é uma situação delicada. "Nunca houve registro de tumor disseminado por drenagem, mas a preocupação existe", afirma o fisioterapeuta Tarso Túlio Nogueira. É bom pensar duas vezes antes de assinar os cheques.

 

 

Revista Época 

 

 

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