E o sol não dará mais o seu brilho…


 

Estudos mostram os males do trânsito intenso para a saúde humana

Por Giuliana Reginatto

 

 

FOTO: ffffound!

 

São Paulo, 06 (AE) – A palavra ‘má’ brilha em vermelho nas placas luminosas que indicam a qualidade do ar em São Paulo: esse painel da Cetesb é o verdadeiro sinal de alerta no trânsito paulistano. Naquelas duas letras, a cor que deveria representar o pare motiva uma partida desenfreada. Dá vontade de trancar as narinas, ou ao menos os vidros do carro, na tentativa de respirar um pouco menos de poluição. Nenhuma das duas táticas foram capazes de amenizar o estresse sobre rodas do empresário Ricardo Ortoni, 28 anos.

 

Para se livrar das crises de rinite e sinusite que o perseguiam a cada congestionamento, decidiu viver no Interior. "Estou há dois meses em Ribeirão Preto, a 310 km da Capital e os sintomas praticamente desapareceram."

 

O efeito terapêutico dos ares mais puros não é mera constatação de um paulistano aborrecido. No banco de dados do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) há diversos estudos que comprovam o impacto dos poluente sobre as vias respiratórias. "Os mecanismos de defesa do epitélio respiratório são afetados pelos agentes químicos, deixando a região mais suscetível a inflamações e infecções. Mais de 90% dessa poluição é gerada pelo trânsito", detalha um dos pesquisadores da instituição, o médico epidemiologista do Luiz Alberto Amador Pereira.

 

No caso do monóxido de carbono, por exemplo, a Cetesb estima que 95% do volume circulante venha dos escapamentos dos veículos. "A obrigatoriedade do uso de catalisadores nos anos 90 foi uma ação importante para reduzir a poluição, mas creio que o aumento descontrolado da frota já exerça um efeito compensatório. Ainda que os veículos mais novos poluam menos, eles circulam em número infinitamente maior. Isso congestiona o trânsito, levando o motorista a tempos muito mais prolongados de exposição aos poluentes", diz Pereira.

 

Nos últimos nove meses o tráfego ficou ainda mais lento na Capital. Segundo a pesquisa Ibope/Movimento Nossa São Paulo, o tempo médio que o paulistano gastava para se deslocar entre a residência e o trabalho passou de uma hora e quarenta minutos em janeiro para duas horas em setembro. "Lembro-me de ocasiões em que levei quase três horas para ir do Brooklin ao Morumbi, ambos bairros da zona sul da cidade.

 

Dentro do bairro onde eu morava chegava a ficar 30 minutos para andar apenas um quilômetro. Notei claramente que estava perdendo muito tempo da minha vida dentro do carro, já não tinha vontade de ir a lugar algum na Capital por causa do trânsito", lembra Ortoni.

 

A liberdade de ir e vir em poucos minutos e a manutenção da saúde custam ao empresário 313 km de distância da família e da namorada. "Assim que comecei a namorar logo avisei que não suportava o trânsito de São Paulo e que por isso me mudaria. Agora, sempre que vou à Capital, a namorada vem me buscar e saímos no próprio bairro. Eu reclamava demais da Cidade, nem eu me agüentava! Além da rinite alérgica, sentia fadiga muscular nas pernas, dor nas costas, dor de cabeça e tinha um péssimo humor", admite.

 

O designer Cristiano Matsuda das Neves, 30 anos, também estuda alternativas para escapar dos congestionamentos. Há dois meses ele vive uma espécie de abstinência automotiva na esperança de amenizar as dores provocadas por uma hérnia de disco. "Na última vez em que estava ao volante precisei parar em um posto por causa da dor, passei a direção para minha mulher", lembra. Na ocasião, ele voltava de Interlagos, na zona sul, onde moram seus pais, para sua casa na Freguesia do Ó, zona norte da cidade. "Já levei até duas horas para fazer esse percurso."

 

É a mulher de Neves que o transporta diariamente até o Terminal da Barra Funda, na zona oeste, onde ele toma o metrô rumo ao trabalho. "Decidi parar de dirigir para ver se as dores melhoravam. Quando me deslocava de carro, chegava todo dolorido no trabalho. Além da hérnia, sinto muitas dores no ombro por causa da tensão que o trânsito provoca. Tentava de tudo para aliviar esse incômodo: me espreguiçava enquanto os carros estavam parados, jogava o ombro para trás para tentar relaxar … Agora, vejo que a solução é deixar o carro de lado."

 

O desconforto experimentado pelos motoristas tem respaldo científico. "Quando estamos sentados, a carga que incide sobre a coluna é quatro vezes maior do que quando estamos em pé ou deitados", explica o ortopedista Rubens Rodrigues, médico do Instituto de Ortopedia e Traumatologia de São Paulo (IOT-SP). "O ideal é passar de quatro a cinco minutos em pé para cada hora sentada, mas é claro que isso se torna inviável no trânsito. Uma alternativa é fazer pequenos alongamentos dentro do próprio carro", indica.

 

Entre os exercícios sugeridos pelo médico está a rotação de pescoço. "Isso melhora a tensão na região cervical. Indico ainda os movimentos isométricos: basta pôr a mão sobre a testa e forçar a cabeça para frente, sem permitir que ela penda. Flexionar a planta do pé para acionar a panturrilha e mexer os pés são outras boas dicas. Para aliviar dores na lombar pouco há para se fazer. Ao ver as pessoas em pé no ônibus saiba que elas estão melhor acomodadas do que o motorista ao volante", diz Rodrigues.

 

Locomover-se por meio de transporte particular nem sempre é uma opção pelo conforto. Há quem não tenha outra alternativa para cumprir sua agenda diária, como é o caso da agente de viagens Helena Romano, 59 anos. "Moro no Itaim e trabalho na Vila Mariana. Perto de casa não há metrô e ao longo do dia preciso sair para visitar os clientes. Não há como trabalhar sem carro", diz ela.

 

Helena conta que chegou a levar uma hora e meia no trajeto entre o Parque do Ibirapuera, na zona sul, e a Vila Madalena, na zona oeste. "Naquele dia, antes de pegar o congestionamento, havia passado por uma fisioterapia. Disse ao médico que saí ótima da clínica e quando estacionei o carro, depois de tanto tempo em trânsito, já estava toda dolorida."

 

O tratamento de Helena também inclui sessões de acupuntura. "A perna esquerda, que é a da embreagem, dói muito. Houve dias em que eu nem conseguia colocar o pé no chão, acho que essas dores são agravadas pela tensão que sofremos ao dirigir. A situação se tornou caótica na Cidade, não sei se por inabilidade dos motoristas ou por pura falta de respeito. É fila dupla, xingamentos, buzinas … Tudo isso gera uma tensão muito grande."

 

Na opinião do angiologista Nelson Hossne, cirurgião cardiovascular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), momentos de estresse, como aqueles vivenciados durante os engarrafamentos, podem levar até a enfartes. Segundo ele, passar muitas horas sentado em uma mesma posição também predispõe a um perigoso acúmulo de sangue nas veias das pernas.

 

"O sangue acumulado pode levar à trombose venosa profunda em pessoas com predisposição para a doença, sobretudo no caso de mulheres que usam anticoncepcional ou fumam. Quanto maior for o tempo sem movimentar-se, maior será o risco de trombose. Esses trombos de sangue podem se deslocar até o pulmão, desencadeando embolia pulmonar e até morte", explica Hossne.

 

A interferência dos poluentes expelidos pelo trânsito sobre o sistema cardiovascular dos paulistanos também é tema de estudo do Laboratório de Poluição da USP. "Com base em dados fornecidos pelo Instituto do Coração verificamos que a procura por prontos-socorros e as internações relacionadas às doenças isquêmicas, como o enfarte, aumentam em até 8% nos dias mais poluídos, principalmente entre as mulheres e os adultos jovens, de 20 a 45 anos", explica o médico Pereira, um dos principais pesquisadores do grupo.

 

Ainda que a repercussão imediata da poluição sobre a saúde seja a forma mais perceptível de seu ataque ao corpo humano, o que mais preocupa os médicos é a destruição silenciosa e contínua que ela opera ao longo dos anos. "A poluição interfere diretamente na mortalidade dos habitantes das metrópoles. Estima-se que ela nos roube de 1 a 2 anos de vida", conclui Pereira.

 

Dicas

 

1. Antes de tirar o carro da garagem, aja como se fosse executar uma intensa atividade física: afinal, é exatamente isso que ela representa. Sendo assim, alongue braços e as panturrilhas.

 

2. Pratique uma outra atividade física regularmente para aliviar as tensões e procure um ortopedista se as dores após dirigir forem constantes ou fortes demais.

 

Ortopedia

 

De acordo com o IOT-SP, a longa permanência no trânsito pode agravar diversas dores nas articulações. Por demandar grande esforço, a direção traz danos às regiões lombar e cervical da coluna. Já os movimentos repetitivos para mudar as marchas estimulam a tendinite nos punhos. Nos membros inferiores, pode haver desgaste nas articulações dos tornozelos por frear e acelerar repetidamente.

 

Circulação

 

As pequenas partículas químicas liberadas durante a queima de combustíveis fósseis, quando inaladas, aumentam o nível de coagulantes do sangue e reduzem sua taxa de anticoagulantes, estimulando a formação de coágulos. São esses coágulos que provocam as doenças isquêmicas, tais como enfarte o acidente vascular cerebral (AVC). Arritmias também são comuns nessas condições.

 

Gestação

 

A linha mais recente de pesquisa do Laboratório de Poluição da USP relaciona o impacto dos poluentes sobre a gestação. De acordo com a tese de doutorado do médico Luiz Alberto Amador Pereira, "a cada 100 mg por metro cúbico de poluição observa-se um aumento entre 12% e 13% nos índices de mortalidade intra-uterina". O bebê também pode apresentar baixo peso ao nascer ou prematuridade.

 

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