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Madeireiras peruanas provocam êxodo de índios para o Brasil

Por Stuart Grundgings

 

 

RIO (Reuters) – Há crescentes sinais de que a exploração de madeira na Amazônia peruana está pressionando algumas das tribos mais isoladas do mundo a se transferirem para o Brasil, o que alimenta conflitos fundiários e por alimentos, segundo um importante pesquisador da Funai.

 

 

De seu remoto posto de observação no Acre, perto da fronteira com o Peru, o indigenista José Meirelles, 60 anos de idade e 20 na região, disse ver provas diárias dessa fuga.

 

 

"Colocando em termos simples, os madeireiros estão matando e expulsando os povos isolados. É claro que eles estão vindo para cá", disse Meirelles à Reuters por email.

 

 

O indigenista, especialista em contato com povos isolados, disse que em setembro foi atacado a flechadas, junto com um colega, perto do posto. As flechas eram de um tipo diferente das usadas pelas tribos do Brasil, o que sugere que esses índios vinham do Peru.

 

 

"Até dois anos atrás, havia três povos. Um quarto se transferiu para a região recentemente. O corte do cabelo, as flechas e o lugar onde vivem são distintos dos demais", escreveu Meirelles.

 

 

É nessa região que vivem também os índios isolados que chamaram a atenção do mundo em maio, por causa de fotos aéreas em que apareciam com os corpos pintados e apontando flechas para o avião. Na época, respondendo à pressão causada pelas imagens, a agência peruana que distribui contratos de petróleo negou a existência de tribos isoladas.

 

 

O Departamento Peruano de Assuntos Indígenas informou à Reuters que ainda pretende divulgar um estudo completo sobre tribos isoladas e a exploração de madeira, prometido há meses. As conclusões iniciais, segundo um funcionário do órgão, é de que a extração de madeira não está provocando a fuga dos índios.

 

 

"É política do Estado reconhecer e proteger as comunidades indígenas isoladas", disse a fonte, pedindo anonimato.

 

 

O Brasil tem 26 tribos isoladas confirmadas, que há séculos subsistem da caça e da coleta. A entidade Survival International diz haver pelo menos três grupos desses no lado peruano da fronteira.

 

 

"O governo deixou muito claro que deseja abrir grandes parcelas da Amazônia — já fez isso para o petróleo e o gás", disse David Hill, da Survival. "Nesse caso, há um problema de extração de madeira em todas as áreas onde isso não deveria estar acontecendo, e está deixando de fazer algo a respeito."

 

 

OCAS NOVAS

 

 

O problema ocorre também no lado brasileiro. O Sistema de Proteção da Amazônia detectou em maio uma área de 2.000 hectares devastada na reserva Kaxinawa Igarapé (AC), o que representa 16 por cento de seu total. A Funai solicitou vôos de reconhecimento em 20 regiões onde supostamente há índios isolados.

 

 

Meirelles disse que as ocas recém-construídas, que ele fotografou do alto neste ano, a cerca de 5 quilômetros da fronteira com o Peru, são mais uma prova do deslocamento das tribos.

 

 

Chapas de madeira, galões vazios de combustível e outros detritos vistos boiando no rio Envira, em frente ao posto de Meirelles, indicam que há atividade de madeireiras rio acima.

 

 

Beatriz Huertas, funcionária da entidade indigenista internacional Cipiaci, que passou três semanas na região da fronteira em junho, disse que a extração de madeira provocou conflitos entre tribos por causa da escassez de recursos no Peru e pressionou os índios a se deslocarem.

 

 

Líderes indígenas em Rio Branco (AC) disseram a ela que foram atacados por tribos recém-chegadas do Peru. Ex-integrantes de tribos isoladas no lado peruano relataram a ela que haviam sido atacados por madeireiros.

 

 

"Por um lado, eles são perseguidos e mortos por madeireiros, e quando fogem entram em conflito com tribos isoladas rivais. Então precisam continuar procurando espaço onde possam se alimentar", disse ela.

 

(Reportagem adicional de Raymond Colitt, em Brasília, e Dana Ford, em Lima)

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